sábado, 29 de abril de 2017

Hannah Baker e a necessidade de falar sobre depressão

Hannah Baker é personagem da série estado-unidense 13 reasons why, estreada em 31 de março de 2017.  A produção, que conta com Selena Gomez como produtora executiva, foi baseada no livro de Jay Asher, Thirteen reasons why, de 2007, e foi adaptada pela Netflix, provedora global de filmes e séries de televisão via streaming, fundada em 1997.
A história, desenvolvida em 13 episódios da primeira temporada, inicia após uma semana do suicídio de Hannah Baker, estudante do ensino médio que deixa gravado em 13 fitas K7 os motivos que a levaram a colocar um fim em sua vida.
O primeiro que vemos escutar as gravações é Clay Jensen, um amigo próximo de Hannah, que as recebe dentro de uma caixa de sapatos deixada em frente à porta de sua casa. Ao ouvir a primeira fita, Clay fica surpreso e confuso ao escutar a voz de Hannah. Porém, talvez a curiosidade e o desejo de saber porque ela se suicidou o motivam para continuar as escutando, mas não sem algumas dificuldades, uma vez que Hannah revela segredos que outros colegas dela e de Clay não querem que sejam divulgados.
Num primeiro momento poderíamos pensar que a série não passa de mais um seriado voltado para o público adolescente que, por vezes, romantiza seus problemas. Essa foi, inclusive, uma das críticas lançadas à série que teria romantizado o suicídio e mostrado que essa é a única opção para se livrar de problemas.
Contudo, a série está longe de ter romantizado o suicídio de Hannah, pois ao acompanharmos as revelações feitas através das suas gravações podemos sentir o sofrimento que ela sente ao passar por situações problemáticas que ultrapassam a ficção. Dentre elas, a mais clara e desoladora de todas, está o bullying vivenciado constantemente pela personagem que, por um tempo, tenta superar sozinha. Ao não conseguir, pede ajuda, ainda que não de forma explícita, mas é, de certa forma, culpabilizada por certos acontecimentos, como o fato dela ter sido assediada por colegas, pelo conselheiro de sua escola.
Ao longo dos episódios podemos ver como Hannah vai adentrando na zona da depressão. As gravações são para ela uma forma de desabafar, uma vez que não se sente segura e à vontade para compartilhar sua solidão e tristeza com ninguém. Assim, é possível perceber que essa foi a forma que ela encontrou de tentar superar essa situação que, contudo, tornou-se insuportável. Viver tornou-se insuportável. E isso não é romance.
A série mostra uma situação enfrentada por inúmeras pessoas todos os dias. Todos conhecemos uma Hannah Baker. Alguns de nós somos Hannah Baker. E algumas Hannah Baker no Brasil buscaram ajuda do CVV, centro de valorização da vida, que registrou aumento de 445% de contatos desde a estreia da série, fenômeno parecido registrado também quando se deu o lançamento do livro de Asher. Em termos mundiais, a repercussão da série também foi positiva, a ponto da Netflix criar uma plataforma com uma lista de organizações de saúde para informar aqueles que buscam ajuda por conta da série (http://www.13reasonswhy.info).
Ao longo das informações que as fitas revelam, podemos compreender como o sofrimento de Hannah é construído a partir de situações humilhantes e vexatórias à quais ela foi sujeita. Esse ponto também é importante analisar, pois sustenta o fato de que a culpa nunca é da vítima, como sugeriu o conselheiro da escola e os próprios colegas de Hannah e como comumente ocorre na realidade, sobretudo quando a vítima é mulher.
13 reasons why, portanto, não trata da romantização do suicídio. Não trata de vingança. Não se trata de uma simples série adolescente. Ela trata da importância de analisarmos nossos atos que podem levar sofrimento a outras pessoas. Ela trata de pessoas que sofrem e não conseguem lidar com esse sofrimento. Ela trata de angústia, de dor, de morte. Ela trata, sobretudo, da necessidade de falarmos sobre depressão e suicídio que não podem mais ser considerados tabu.