segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Educação sentimental 3

Meu primeiro namoro teve início oficialmente no dia 14 de junho de 1996 num show do Kid Abelha. Eu tinha 14 anos e ele 19. Até hoje é impossível escutar Kid Abelha sem lembrar desse momento. O namoro durou 3 anos porque aos 17 eu disse não ao pedido de casamento dele.
Recentemente isso voltou à minha mente quando escutei uma música do Kid Abelha, Educação Sentimental 2, que fala sobre a vida que nos ensinam a ter: “trabalho, dinheiro, família, filhos e tal”. Essa é uma vida normal e eu abri mão dela. A primeira vez aos 17 anos. Compreensível. Nada de mais... Quase casei mais duas vezes. Desisti novamente. Fui mais longe. No início desse ano pensei em engravidar. Achei que as vozes que dizem que estou ficando velha e que devo correr contra o tempo estavam certas. Ao dar a notícia para minha mãe ela saiu da minha casa com um sorriso contagiante, como se tivesse recebido a notícia de que eu já estava grávida.
Informei às vozes a notícia. Antes de eu efetivamente engravidar, uma amiga engravidou. Ela tornou-se meu anticoncepcional. Eu percebi nela alguém que eu não queria ser. Ao menos agora. Não sei se eu teria condições psicológicas para suportar o que uma gravidez precisa que se suporte. Percebi de perto que a gravidez não é um mar de rosas. Há que suportar dor, cansaço, distúrbios hormonais, e as vozes que dizem que você está gorda demais. Sim, porque até grávidas tem padrão de beleza.
Assim, amadurecida a ideia, desisti de engravidar. Como se não bastasse, deixei o meu trabalho para fazer coisas que, no fundo, sempre quis fazer mas nunca tive a efetiva coragem de colocá-las em prática.
Minha mãe ficou triste pelo filho que desisti de ter e pelo emprego que “não valorizei”. Diz que reza pra eu encontrar alguém, casar. Todos esperam isso. Todos me perguntam quando vou casar, quando terei filhos. Para todas essas vozes isso é uma vida normal, e que todos almejam. Bem...eu não. A minha vida normal está bem longe dessa normalidade. E daí? E daí são os outros, ou melhor, a eterna necessidade de ter que justificar para essas vozes que a felicidade, diferente do que pregam os filmes da Disney, não depende de estar com alguém e de ter filhos. Não, a mulher não tem um dom natural para ser mãe. Ela também não é frágil. Não precisa necessariamente de família, filhos e tal para se sentir realizada. Isso não é tudo. “Isso é menos do que tudo, é menos do que eu preciso.”