segunda-feira, 15 de maio de 2017

O cabelo de Clara



Segundo o site da Agência Brasil, a busca pelo termo feminismo aumentou 86,7% no Brasil, entre janeiro de 2014 e outubro de 2015 o que revela não só o aumento do interesse por informações sobre o assunto, mas também demonstra maior atuação desse movimento social ou a sua maior visibilidade, com a qual contribuiu a polêmica prova do ENEM de 2015 que continha questões sobre a violência contra a mulher e sobre o aparato ideológico feminista da pensadora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986).
Nesse contexto, não se pode deixar de mencionar que, em 2011, o Brasil elegeu sua primeira presidenta, Dilma Rousseff, reeleita em 2015 que, contudo, sofreu diversas críticas que ultrapassam o campo da política e invadem o âmbito do machismo e da misoginia.
Assim, num contexto conturbado, a pauta feminista ganhou força a partir de 2014, não somente no Brasil, angariando vozes divergentes, mas também vozes de peso (no que entenda-se personalidades como vozes de autoridade) em favor da sua militância.
Diante disso, é impossível não interpretar a produção cultural desse período a partir das luzes (e sombras) geradas pelo conflituoso contexto político, social, econômico e cultural no qual se insere. Dessa forma, Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, produção de 2016, não passou incólume a interpretações, críticas e ovações, a começar pelo próprio posicionamento dos atores do filme que, no Festival de Cannes, se posicionaram contra o golpe travestido de impeachment da presidenta Dilma. Assim, o filme tornou-se político.
Na verdade, todas as nossas ações são políticas sendo que posicionar-se sobre um assunto através de um personagem é sintomático dessa situação. Dessa forma, o filme nos apresenta diversas críticas, umas mais sutis e outras mais contundentes, sobre o estilo de vida em Pernambuco (e porque não no Brasil) do século XXI, que pensávamos que estaríamos mais para Jetsons do que para Flinstones
As críticas são veiculadas pela personagem principal interpretada por Sônia Braga. A história de Clara, a personagem, inicia-se com ela ainda jovem (interpretada por Barbara Colen), com os cabelos curtos consequência de um câncer que, posteriormente, descobrimos ter sido de mama. A cena em que esta revelação ocorre é chocante. Clara madura, com cabelos compridos, sai com as amigas e conhece um homem com o qual se relaciona naquele momento. No carro, entre beijos e carícias, ele nota algo diferente em Clara. Sem subterfúgios, ela conta que passou por uma mastectomia. O homem fica constrangido, se desvencilha dela e Clara vai sozinha para casa.
Essa cena revela muito mais do que que um descuidado espectador pode sugerir. A começar com a escolha de Clara em não fazer uma reconstrução de mama. Os seios são, talvez de forma estereotipada, um símbolo da feminilidade. Clara recusa esse símbolo. Ou melhor, ela mantém o símbolo. A mastectomia é o símbolo da sobrevivência e da resistência. Porém, Clara não deixou de ser feminina. Ou melhor, não deixou de ser mulher e não deixou de se sentir mulher, como é demonstrada na cena em que ela mantém relações sexuais com um michê.
Outro aspecto importante é o cabelo de Clara. Ele também pode ser compreendido como um personagem. O cabelo da Clara madura sempre é colocado em primeiro plano, sobretudo antes de momentos marcantes da personagem. Ou ela o prende, ou solta. Mas eles estão ali. Mais um símbolo de feminilidade. E de sobrevivência e de resistência.
A narração da vida de Clara nos permite delinear diversas situações às quais as mulheres estão submetidas. A começar com o estereótipo de feminilidade que é questionado pela escolha de Clara manter sua mastectomia. Outro questionamento promovido por esta personagem é sobre a vida sexual da mulher madura (em oposição à terceira idade). Clara está viva e sente viva sua sexualidade. Assim, como sente-se viva sem uma parte do seu corpo que aos outros, sobretudo aos homens, parece decretar sua morte.
Há algumas hipóteses que interpretam Clara como uma alusão a Dilma, que também sobreviveu a um câncer e tenta sobreviver nesse man's man's world. Clara pode ser Dilma. Mas não só. Ela surge no contexto da lute de mulheres que, ainda no século XXI buscam pelo direito de serem respeitas incondicionalmente.



sábado, 29 de abril de 2017

Hannah Baker e a necessidade de falar sobre depressão

Hannah Baker é personagem da série estado-unidense 13 reasons why, estreada em 31 de março de 2017.  A produção, que conta com Selena Gomez como produtora executiva, foi baseada no livro de Jay Asher, Thirteen reasons why, de 2007, e foi adaptada pela Netflix, provedora global de filmes e séries de televisão via streaming, fundada em 1997.
A história, desenvolvida em 13 episódios da primeira temporada, inicia após uma semana do suicídio de Hannah Baker, estudante do ensino médio que deixa gravado em 13 fitas K7 os motivos que a levaram a colocar um fim em sua vida.
O primeiro que vemos escutar as gravações é Clay Jensen, um amigo próximo de Hannah, que as recebe dentro de uma caixa de sapatos deixada em frente à porta de sua casa. Ao ouvir a primeira fita, Clay fica surpreso e confuso ao escutar a voz de Hannah. Porém, talvez a curiosidade e o desejo de saber porque ela se suicidou o motivam para continuar as escutando, mas não sem algumas dificuldades, uma vez que Hannah revela segredos que outros colegas dela e de Clay não querem que sejam divulgados.
Num primeiro momento poderíamos pensar que a série não passa de mais um seriado voltado para o público adolescente que, por vezes, romantiza seus problemas. Essa foi, inclusive, uma das críticas lançadas à série que teria romantizado o suicídio e mostrado que essa é a única opção para se livrar de problemas.
Contudo, a série está longe de ter romantizado o suicídio de Hannah, pois ao acompanharmos as revelações feitas através das suas gravações podemos sentir o sofrimento que ela sente ao passar por situações problemáticas que ultrapassam a ficção. Dentre elas, a mais clara e desoladora de todas, está o bullying vivenciado constantemente pela personagem que, por um tempo, tenta superar sozinha. Ao não conseguir, pede ajuda, ainda que não de forma explícita, mas é, de certa forma, culpabilizada por certos acontecimentos, como o fato dela ter sido assediada por colegas, pelo conselheiro de sua escola.
Ao longo dos episódios podemos ver como Hannah vai adentrando na zona da depressão. As gravações são para ela uma forma de desabafar, uma vez que não se sente segura e à vontade para compartilhar sua solidão e tristeza com ninguém. Assim, é possível perceber que essa foi a forma que ela encontrou de tentar superar essa situação que, contudo, tornou-se insuportável. Viver tornou-se insuportável. E isso não é romance.
A série mostra uma situação enfrentada por inúmeras pessoas todos os dias. Todos conhecemos uma Hannah Baker. Alguns de nós somos Hannah Baker. E algumas Hannah Baker no Brasil buscaram ajuda do CVV, centro de valorização da vida, que registrou aumento de 445% de contatos desde a estreia da série, fenômeno parecido registrado também quando se deu o lançamento do livro de Asher. Em termos mundiais, a repercussão da série também foi positiva, a ponto da Netflix criar uma plataforma com uma lista de organizações de saúde para informar aqueles que buscam ajuda por conta da série (http://www.13reasonswhy.info).
Ao longo das informações que as fitas revelam, podemos compreender como o sofrimento de Hannah é construído a partir de situações humilhantes e vexatórias à quais ela foi sujeita. Esse ponto também é importante analisar, pois sustenta o fato de que a culpa nunca é da vítima, como sugeriu o conselheiro da escola e os próprios colegas de Hannah e como comumente ocorre na realidade, sobretudo quando a vítima é mulher.
13 reasons why, portanto, não trata da romantização do suicídio. Não trata de vingança. Não se trata de uma simples série adolescente. Ela trata da importância de analisarmos nossos atos que podem levar sofrimento a outras pessoas. Ela trata de pessoas que sofrem e não conseguem lidar com esse sofrimento. Ela trata de angústia, de dor, de morte. Ela trata, sobretudo, da necessidade de falarmos sobre depressão e suicídio que não podem mais ser considerados tabu.  



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Educação sentimental 3

Meu primeiro namoro teve início oficialmente no dia 14 de junho de 1996 num show do Kid Abelha. Eu tinha 14 anos e ele 19. Até hoje é impossível escutar Kid Abelha sem lembrar desse momento. O namoro durou 3 anos porque aos 17 eu disse não ao pedido de casamento dele.
Recentemente isso voltou à minha mente quando escutei uma música do Kid Abelha, Educação Sentimental 2, que fala sobre a vida que nos ensinam a ter: “trabalho, dinheiro, família, filhos e tal”. Essa é uma vida normal e eu abri mão dela. A primeira vez aos 17 anos. Compreensível. Nada de mais... Quase casei mais duas vezes. Desisti novamente. Fui mais longe. No início desse ano pensei em engravidar. Achei que as vozes que dizem que estou ficando velha e que devo correr contra o tempo estavam certas. Ao dar a notícia para minha mãe ela saiu da minha casa com um sorriso contagiante, como se tivesse recebido a notícia de que eu já estava grávida.
Informei às vozes a notícia. Antes de eu efetivamente engravidar, uma amiga engravidou. Ela tornou-se meu anticoncepcional. Eu percebi nela alguém que eu não queria ser. Ao menos agora. Não sei se eu teria condições psicológicas para suportar o que uma gravidez precisa que se suporte. Percebi de perto que a gravidez não é um mar de rosas. Há que suportar dor, cansaço, distúrbios hormonais, e as vozes que dizem que você está gorda demais. Sim, porque até grávidas tem padrão de beleza.
Assim, amadurecida a ideia, desisti de engravidar. Como se não bastasse, deixei o meu trabalho para fazer coisas que, no fundo, sempre quis fazer mas nunca tive a efetiva coragem de colocá-las em prática.
Minha mãe ficou triste pelo filho que desisti de ter e pelo emprego que “não valorizei”. Diz que reza pra eu encontrar alguém, casar. Todos esperam isso. Todos me perguntam quando vou casar, quando terei filhos. Para todas essas vozes isso é uma vida normal, e que todos almejam. Bem...eu não. A minha vida normal está bem longe dessa normalidade. E daí? E daí são os outros, ou melhor, a eterna necessidade de ter que justificar para essas vozes que a felicidade, diferente do que pregam os filmes da Disney, não depende de estar com alguém e de ter filhos. Não, a mulher não tem um dom natural para ser mãe. Ela também não é frágil. Não precisa necessariamente de família, filhos e tal para se sentir realizada. Isso não é tudo. “Isso é menos do que tudo, é menos do que eu preciso.”

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Malala, a garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã

Nove de outubro de 2012. Um ônibus, estudantes e um Colt 45. Dessa estranha e quase mortal relação surge uma protagonista: Malala, a garota que foi baleada pelo Talibã.[1] Os acontecimentos desse dia passaram a definir a garota que defende o direito à educação, como o próprio título do livro que narra os acontecimentos sugere: Eu sou Malala – a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã.
A obra, lançada em 2013, um pouco mais de um ano após o atentado, tem como objetivo não contar o que aconteceu, algo que o mundo inteiro acompanhou, estupefato, mas contar a trajetória que culminou no atentado que feriu três meninas, sendo Malala de forma mais grave.
O livro, de vinte e quatro capítulos divididos em cinco partes, narrado em primeira pessoa (Malala), faz uma descrição minuciosa da vida cotidiana com a família, com as amigas, com detalhes de momentos e de sensações, o que faz com que o leitor sinta-se inserido no ambiente dela, contribuindo para apreender a situação a partir dos seus sentidos e compreensão. Assim, o leitor é convidado a conviver na região pobre, mas com belas paisagens, a adentrar à casa onde nasce Malala, cujo momento é descrito quase com um sentimento de predestinação, uma vez que seu nome é uma referência a Malalai de Maiwand, maior heroína do Afeganistão, que inspirou o seu exército a derrotar o britânico na Segunda Guerra Anglo-Afegã, em 1880. Malalai foi morta, mas sua coragem ao marchar no campo, diante das tropas, inspirou os homens a virar a batalha. “Malalai é a Joana D’Arc do pachtuns[2]” (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 23). Esperava-se que uma nova Malalai ressurgisse. Surgiu Malala.
Seguindo a estratégia de convidar o leitor a se inserir no contexto de experiências de Malala, um aspecto fundamental apresentado, além da descrição da paisagem e da vivência cotidiana das pessoas, perpassando pelas suas conquistas e dificuldades, é a descrição minuciosa da importância e o respeito que o seu povo tem pela tradição e pela religião. Contudo, a família de Malala é apresentada como sendo diferente do que se costuma presenciar no Vale do Swat, sobretudo no tratamento dado às mulheres. Sua família é peculiar: saudaram o nascimento de uma menina no “lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar” (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 21). Seu pai, dono de escola e defensor do direito à educação das meninas, sempre incentivava Malala a estudar e a se manifestar. Após o atentado, ao receber um prêmio por ela, diz: “No meu lado do mundo a maior parte das pessoas é conhecida pelos filhos que têm. Sou um dos poucos pais sortudos conhecidos pela filha que têm”. (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 320)
Em meio às descrições de paisagens, existem referências à história do Afeganistão que se entrelaça com a história de vida de seu pai e de sua família. Seu pai, desde jovem, foi um ativista em prol da educação, defendendo o direito de as meninas também irem à escola. Inclusive, no livro há frequentemente a revelação do medo que tanto Malala quanto sua mãe sentiam por imaginar que o Talibã atacaria seu pai. Malala nunca imaginou que ela seria um alvo, pois o pensamento era de que o Talibã não atacava crianças.
Outro aspecto importante apresentado no livro é o da religião. Malala é islâmica, faz suas orações diárias pedindo paz, educação e para ser mais alta. Esse é outro elemento que possibilita a proximidade com o leitor. Ela é uma adolescente. Adolescentes rezam por coisas “simples” que, para eles, não são tão simples assim. Porém, apesar, de ser jovem, a imagem que dela é apresentada, é de uma jovem por demais sensata e consciente das deficiências de seu país e pronta para apresentar críticas, sobretudo ao Talibã, mas não somente. Ela faz críticas ao governo afegão e também aos Estados Unidos que, desde a invasão soviética, instigam a “guerra santa”, através dos livros escolares que ensinavam a aritmética com a utilização de linguagem de guerra: “se 10 russos são infiéis, 5 são mortos por 1 muçulmano, restam 5” (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 41).
Outra crítica perpetrada a este país relaciona-se com sua ação na busca, prisão e morte de Osama bin Laden que, escondido no Paquistão foi capturado pela força militar estado-unidense, sem qualquer auxílio do exército paquistanês, fato que contribuiu também para aumentar as críticas ao governo do Paquistão que não foi suficientemente capaz de solucionar esse problema.
Sem dúvida alguma, a ação de Osama bin Laden e os acontecimentos de onze de setembro de 2001 contribuíram para uma avassaladora mudança nas vidas dos paquistaneses. Por um lado, alguns religiosos viram Bin Laden como um herói. Era possível comprar pôsteres e caixas de doces com sua imagem. Diante disso, aproximadamente 12 mil jovens foram lutar pelo Talibã no Afeganistão. As pessoas se juntaram a ele por acharem que teriam uma vida melhor. Os trabalhadores manuais não tinham reconhecimento e se juntaram ao Talibã para obter status e poder. O Talibã foi, portanto, a tábua de salvação para muitos.
Nesse contexto, as madrasas[3] atraíram muitos jovens, por meio de anúncios de treinamento para a luta, para a jihad[4]. Os pachtuns muito religiosos estavam furiosos com a invasão americana no Afeganistão. As madrasas também acolheram os órfãos do terremoto de 2005. Elas são como

uma espécie de previdência, pois dão comida e alojamento, mas o ensino que ministram não segue o currículo normal. Os meninos aprendem o Corão pela repetição, balançando o corpo para a frente e para trás enquanto recitam. Aprendem também que não há coisas como ciência ou literatura, que dinossauros nunca existiram e que o homem jamais foi à Lua. (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 117).

Por outro lado, o Talibã representou o ponto final na vida de tantos outros. Havia toque de recolher; houve a destruição de 400 escolas somente em 2008; havia A Praça Sangrenta, em que corpos amanheciam na praça para serem observados, como um aviso. Houve a necessidade de 1/3 da população do vale do Swat, onde Malala vivia, se retirar, passarem a viver como PDIS, pessoas deslocadas internamente. Houve o atentado. Houve necessidade de buscar melhores condições médicas em Birminghan, Inglaterra, onde mora atualmente com sua família.
Ainda no hospital recebeu milhares de cartões, presentes, visitas e apoios de pessoas ilustres. Como afirma no livro, o Talibã tinha transformado sua causa em uma causa mundial, com exceção do Paquistão, de onde surgiram severas críticas a Malala, acusada de fingir o atentado para poder pedir asilo e viver em outro país.
O livro, portanto, apresenta-se como uma forma de promover o conhecimento não só da história de uma adolescente que foi atacada, mas também sobre uma região e uma religião que ainda são pouco conhecidos verdadeiramente, ao menos no Ocidente que, motivado pelos acontecimentos de onze de setembro de 2001, está impregnado de preconceito em relação ao Oriente e, sobretudo, à religião islâmica.
A trajetória da ascensão do Talibã no Afeganistão é feita minuciosamente, coerente com a proposta de inserir o leitor no contexto, de modo a fazê-lo compreender tanto a “lógica” do Talibã quanto a experiência dos afegãos diante da ineficácia do governo em combatê-lo. Assim, o leitor, sobretudo ocidental, uma vez que há inúmeras referências à sua cultura, como as leituras – de Tolstoi a Paulo Coelho -  e o cinema – o filme Crepúsculo –, é convidado a visualizar a possibilidade de uma conexão com o Oriente.
Além disso, o mais interessante é o fato de, além de contar a história de Malala, o livro oferece algumas informações sobre o Islã, ainda muito incompreendido pelo Ocidente. A partir da história de Malala é possível fazer uma distinção entre a religião islâmica e como um determinado grupo se utilizou dessa religião para atender a propósitos particulares. Há, portanto, uma tentativa de restabelecer o Islã, que não deve ser confundido com o Talibã. “Nós pachtuns, somos um povo religioso e amoroso. Por causa do Talibã, o mundo todo anda dizendo que somos terroristas”. (LAMB; YOUSAFZAI, 2013: 151). Ademais, é muito interessante reconhecer uma menina, uma adolescente que tem suas convicções como mulher, cidadã e que essas convicções não entram em conflito com a religião que, inclusive, contribui para as suas manifestações e reivindicações.



[1] Originário de Talib, que significa estudante da religião, posteriormente o significado passou a ser membro do grupo Talibã.
[2] Grupo étnico de algumas regiões do Paquistão e Afeganistão.
[3] Escola de instrução islâmica.
[4] Guerra Santa ou conflito interno.







sábado, 22 de outubro de 2016

Baú Literário

Ensaio sobre o anonimato


Por muito tempo na história “anônimo” era uma mulher. Com essa frase Virgínia Woolf denuncia duas deficiências na história da humanidade: a de não reconhecer e não dar espaço à voz das mulheres. Estas, por séculos, passaram despercebidas como agentes da História e foram analisadas sob o viés da inferioridade e, por vezes, exclusivamente relacionadas ao da sexualidade. Por isso, recorreram ao anonimato ou aos pseudônimos masculinos (alguém já ouviu falar em Aurore Lucile Dupin? Mas provavelmente todos já ouviram falar em George Sand...). Para serem vistas e ouvidas, elas tiveram de se esconder. Até não quererem mais agir em surdina.
Pode-se dizer que o movimento feminista dos anos 60-70 contribuiu para esse desvelamento que desembocou em diferentes questionamentos sobre o papel da mulher na sociedade. No campo da História, por exemplo, a denominada história das mulheres surge no rastro do movimento feminista e se ocupa política, social e culturalmente de questionar essa sociedade que exclui as mulheres da sua rede de ações e criações, pois, no próprio campo acadêmico essas mulheres que faziam História precisaram se legitimar frente o discurso conservador que não as reconhecia como pares. Pode-se dizer que esse campo histórico está hoje consolidado. Poderíamos dizer, então, que felizmente as mulheres resolveram seus problemas com os silêncios da História e quebraram a barreira do anonimato... Talvez não... Talvez tenhamos que dizer, infelizmente, as mulheres ainda se escondem nas sombras do anonimato...
Tal constatação pode ser feita a partir de alguns depoimentos que buscam pelas mulheres. Recentemente fiz a leitura de um texto na internet de uma escritora carioca que ofereceu uma oficina literária e se surpreendeu com o fato de que só mulheres se inscreveram. Num segundo momento, a surpresa se deu pelo fato de que essas mulheres já escreviam, mas nunca publicaram seus trabalhos por não se considerarem escritoras. Elas se esconderam no anonimato da oficina literária.
Coincidentemente, no mesmo período em que fiz essa leitura, eu mesma participei de uma oficina literária... Esta, diferente da carioca, não era só formada por mulheres, mas elas eram a maioria, que lá se sentiram à vontade para falar sobre as vidas fictícias que já criaram.
Ao final da oficina, foram feitos alguns sorteios de brindes e eu fui agraciada com o livro 48 contos paranaenses, organizado por Luiz Ruffato. Como o título sugere, o livro apresenta ao leitor 48 contos de escritores paranaenses. Fiquei curiosa em saber quais seriam esses autores. Imaginei que certos nomes seriam obrigatórios na composição do livro. De fato, Dalton Trevisan está lá. Helena Kolody, não. Mas ela era uma poetisa, então compreende-se sua ausência já que o livro é de contos. Fui em busca, então, desses autores paranaenses e me deparei com 4 autoras. Dos 48 contos do livro, somente 4 foram escritos por mulheres. Lembrei-me imediatamente das cariocas. Será que as paranaenses também estão sob o véu do anonimato das oficinas?
O anonimato é o companheiro inseparável dessas mulheres que escrevem, mas que não são lidas. O anonimato é o elefante branco sentado na sala. Ele é o elefante branco da Academia Paranaense de Letras que, dos seus atuais 39 membros, 5 são mulheres. O anonimato é o elefante branco da Academia Brasileira de Letras que, dos seus atuais 40 membros, 5 são mulheres. Sem falar dos vários eventos literários que celebram, em sua maioria, a literatura feita por homens.
Esta situação, infelizmente, não é local. Em 2014, a escritora inglesa Joanna Walsh decidiu expor o elefante branco da falta de visibilidade das mulheres no campo literário. Ela lançou uma campanha #ReadWomen2014 que instigava a leitura de obras literárias de mulheres que escrevem tanto quanto os homens, mas não recebem tanta visibilidade como eles. No Brasil também há iniciativas como a da autora inglesa, como o site kdmulheres que visa contribuir com reflexões e iniciativas que colaborem para a construção de uma maior visibilidade da literatura feita por mulheres.
O livro 48 contos paranaenses, além da boa leitura literária, nos faz refletir sobre essa conjuntura problemática e, ainda que inconscientemente, denuncia o anonimato ao qual as mulheres se sujeitam por não encontrarem espaço para as suas letras. Porém, é preciso escrever. É preciso sair do anonimato das oficinas, pois as mulheres não querem só flores, elas também querem espaço nas prateleiras das livrarias, nas cadeiras das academias, serem celebradas nos festivais literários e, principalmente, querem ser lidas!


Baú Cultural

Conversas de vestidos e calças

O outono tem sido quente. Parece que o verão não quer nos deixar. Para mim, tudo bem, pois adoro o calor, aquele cheiro da noite quente que convida a andar pela cidade ao invés de se esconder debaixo das cobertas e de uma caneca de chocolate quente. Porém, é preciso saber sobreviver ao “verão”. Colocar as pernas de fora é uma das táticas. Mas também pode ser um problema…não para as pernas que estão de fora, porque elas estão felizes livres e refrescadas. O problema é com as pessoas que nunca devem ter visto pernas de fora, ou que devem se incomodar com as pernas alheias. No caso dessa história, as pernas de fora são as das mulheres e os incomodados, os homens. Eu gosto de usar saias, vestidos. Sinto-me presa e desconfortável com calça. Interessante pensar que justamente ela, a calça, já foi símbolo de revolução de comportamento. As mulheres não podiam usá-las. Até que algumas tiveram a audácia de usar. Tornou-se moda e hoje uma mulher usando calça é algo banal. Hoje o problema é saia, o vestido. Hoje, num outono veranesco, as mulheres puseram as pernas de fora. Eu também. Ao entrar em um ônibus, um homem mandou um beijo para mim e tentou formar algumas palavras, provavelmente não muito elegantes. Ele não conseguiu terminar de formular as palavras porque antes delas eu respondi a ele. Confesso que fui grosseira, assim como ele. A dita criatura ficou sem rumo naquele ônibus. Ficou chocado por ter sido repreendido por uma mulher que se atreveu a colocar as pernas de fora num dia quente. Aí fiquei imaginando aquelas mulheres que se atreveram a usar calças quando não podiam. Calças, nesse contexto, podem ser consideradas símbolos de uma revolução comportamental, social, sexual. Penso que hoje, as saias, os vestidos ocupam esse papel. Interessante pensar que o assinte seja pernas de fora num dia de calor e não a obscenidade e desrespeito diante delas. Vi muitas pernas de fora hoje. As masculinas passavam despercebidas na multidão. As femininas tiveram que justificar sua audácia de estarem à mostra. O bom é que sempre existirão pernas audaciosas!